
São Lucas escreve: “A multidão dos que tinham abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma. Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum” (Actos 4, 32). São frases que se encontram nos escritores gregos quando definem ou descrevem a amizade. Longe de pensar num sistema económico, Lucas descreve a comunidade cristã como uma comunidade de amigos. Mas não é só um ideal para os perfeitos ou uma virtude humana, como pensavam os filósofos gregos, mas sim uma realidade que acontece já neste mundo, porque na comunidade cristã tudo se partilha a partir do amor que Cristo depositou no coração de cada um. Por isso, põem à disposição dos outros tudo o que têm, com a finalidade de que os aproveitem, “segundo a necessidade de cada um” (Actos 2, 45; 4, 35).
O mundo pagão, ao qual se dirige a pregação de Lucas, estava cheio de contrastes económicos: ricos, pobres, miseráveis, patrões e escravos. Lucas oferece-lhes um exemplo de uma sociedade diferente, onde se vive como irmãos e desaparecem as desigualdades irritantes. Muito mais do que recomendar aos cristãos que sejam generosos com os pobres, Lucas propõe que todos partilhem, para que desapareçam as diferenças sociais.
Voltando à parábola do rico e do pobre, alguns detalhes do relato parecem aludir a outra situação, que vai para além do problema entre ricos e pobres: o rico dirige-se a Abraão chamando-o de “pai” (16, 24.27 e 30), enquanto que Abraão responde chamando-o de “filho” (16, 25); este rico tem irmãos, dos quais se diz que “têm a Moisés e aos Profetas” (16, 29); por último afirma-se que estes irmãos “não se convencerão, ainda que ressuscite um morto” (16, 31). Todos estes detalhes tomados em conjunto, fazem pensar que esta parábola tem elementos alegóricos: o rico seria o povo judeu (tem como pai a Abraão, tem Moisés e os Profetas, não aceitou a mensagem da ressurreição do Senhor); este povo é rico porque recebeu uma quantidade de bens da parte de Deus: a eleição, a aliança, os mandamentos, o culto, a predicação de Deus, etc., enquanto que o pobre representaria os pagãos, que não receberam nada disto (por exemplo Romanos 9, 4-5; Efésios 2, 11-12). Então, se Lucas põe um rico como figura do povo judeu e um pobre como figura do povo pagão, chega-se à conclusão de que o primeiro bem que o rico deve partilhar é o Evangelho. Se todos devem partilhar as riquezas, a primeira destas é a salvação, para que esta chegue a todos aqueles que ainda não a têm.
Lucas quer criar nos seus ouvintes uma consciência de que, para ser cristão, tem que se partilhar, sendo uma necessidade interior à qual não se pode renunciar nem se deve descurar. No entanto, deve-se partilhar a todos os níveis, começando pelos mais importantes, o Evangelho, até aos que são menos importantes, mas necessários, como os bens materiais. "Evangelho Segundo São Lucas"